sábado, 10 de março de 2012

Memória

Estava em mais uma de suas crises depressivas. Tomava seus comprimidos com uma voracidade absurda, como se fosse um animal caçando alimento, porém era uma garota a procura de cura. Uma cura que não encontrava.
Sua cama era o refúgio para essas crises. Deitava-se e ficava a imaginar um mundo melhor, afim de animar-se com isso, e então levantar da cama toda saltitante e sorrindo para as pessoas; só que isso nunca acontecia. Na verdade as imaginações utópicas eram substituídas rapidamente por lembranças nostálgicas, que pioravam o quadro depressivo.
Em um de seus momentos de lembranças e imaginações, o sono dominou-a.
Subia rapidamente uma escada, com uma felicidade que ela não sabia de onde vinha, uma felicidade que não existia em sua vida há muito tempo. Um vulto surgiu na sua frente, e não teve tempo de se desviar, nem tempo de ver o que era o vulto, só sentiu a força de um corpo contra o seu próprio corpo. Foi tudo tão rápido. Sentiu o corpo rolar pelos degraus abaixo, e ouvia, com dor e assombro o estalar dos ossos quando se chocava no solo; até que no ultimo degrau ouviu um estalido quase metálico dentro de sua cabeça, e tudo apagou.
Acordou em uma cama de hospital, com pessoas estranhas a sua volta. Tentou lembrar o que havia acontecido, em vão. Chamou pela sua mãe, e a enfermeira lhe disse que a mãe morava em outra cidade porém estava a caminho. Estranho, pensava ela, não se lembrava de não morar mais com os pais.
Recebeu a visita de alguns amigos da faculdade, e se apavorou, porque não lembrava de ter passado no vestibular, nem de já ter ingressado na faculdade, não reconhecia nenhum daqueles rostos que se diziam amigos.
Foi então que o médico deu o aviso da perda de memória, e pelos exames e testes, tudo indicava que ela não lembrava de nada de seus últimos 5 anos de vida.
Ela agarrou fortemente as mãos na maca, respirou fundo e fechou os olhos, tentando lembrar alguma coisa.
Despertou.
As lágrimas lavavam sua face, não pelo sonho estranho e desagradável, mas sim pelo desespero em saber que suas memórias ainda estavam intactas e prontas para continuarem a machuca-la.

Um comentário:

  1. moro com uma escritora e não sabia! mt bom o seu texto, mah.

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